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Preservação é única forma de tirar rios jaraguaenses de situação de risco de estresse hídrico

Publicado em 16/10/2017 às 08:57 - Atualizado em 16/10/2017 às 09:03

Morador do bairro Águas Claras, Alfredo cuida do rio para a geração do neto, Felipe
Créditos: Eduardo Montecino/OCP Baixar Imagem

A riqueza hídrica de Jaraguá do Sul é inegável e está aparente nos quatro cantos da cidade, seja na área urbana, na rural ou nos refúgios naturais em meio aos morros. Essa relação entre a comunidade e os afluentes foi fundamental para o desenvolvimento do município. Foi em volta dos rios que os primeiros moradores e fábricas se instalaram para usufruir das águas como caminhos para transporte e fonte de matéria-prima.

Com o passar dos anos, o crescimento desordenado da população e do parque industrial fez esta relação de admiração e até mesmo de suporte dos rios mudar e indicar uma realidade futura nada agradável para a cidade. Segundo dados do Plano de Recursos Hídricos da Bacia Hidrográfica do rio Itapocu, elaborado pela Amvali (Associação dos Municípios do Vale do Itapocu), em cerca de dez anos a bacia entrará em uma situação de estresse hídrico, com uma demanda maior que a disponibilidade.

“Se os índices de crescimento populacional, instalação de fábricas e uso da água na agricultura se confirmarem, não teremos recursos para atender todos esses usuários”, aponta a engenheira florestal da Amvali, Karine Holler. O estudo leva em consideração as demandas dos diferentes segmentos – abastecimento público, agricultura e indústria. Atualmente, a vazão máxima disponível para a bacia é igual a 9.195 litros por segundo. Cruzando estes números com os dados da demanda hídrica futura, a vazão precisaria ser de 12.865 litros por segundo.

 

“Se os índices de crescimento populacional, instalação de
fábricas e uso da água na agricultura se confirmarem, não
teremos recursos para atender todos esses usuários.”

Karine Holler, engenheira florestal da Amvali

 

AÇÕES PARA MANTER AS ÁGUAS 

Morando há 20 anos às margens de um ribeirão na rua Alzira Franceschi Vasel, no bairro Águas Claras, Alfredo Rosa Bonfim, 64 anos, conhece bem a importância de preservar as águas e a mata ciliar. “Isso daqui é o paraíso, não mudo de endereço por nada. O barulhinho do riacho é ótimo para dormir e o ar é bem mais fresco”, conta Bonfim.

Manter esta paisagem natural viva para as próximas gerações da família, incluindo o neto Felipe, de um ano e três meses, está entre os objetivos do morador. Para fazer sua parte e contribuir com a manutenção, ele participa das ações organizadas pela associação de moradores do bairro, que promove limpezas ao longo do percurso do riacho. A comunidade retira móveis, plásticos, cadeiras e outros itens que são despejados incorretamente no local.

Apesar da beleza natural, Bonfim destaca que em tempos de seca e calor, o cheiro é forte e incômodo. “Aqui ainda não tem rede de tratamento de esgoto, o que se torna um motivo a mais para cuidarmos da área. Comentamos muito sobre conscientização no bairro e aguardamos pela instalação da rede em breve”, enfatiza o morador.

O presidente da Fundação Jaraguaense de Meio Ambiente (Fujama), Normando Zitta Júnior, acredita que essa boa ligação com os rios que cortam a cidade precisa ser trabalhada e recuperada. “Junto da expansão do município, houve a diminuição da mata ciliar, extremamente importante para manter a qualidade e quantidade de água nos próximos anos”, comenta.

Segundo ele, o tema vem sendo tratado pelas entidades de formas distintas. Como não é possível destruir as construções próximas aos rios na área urbana já consolidada, foram criadas medidas distintas ao estabelecido por lei federal. A legislação municipal prevê uma distância de dez a dois mil metros, em cada lote, nos locais próximos ao curso d’água. As ações mais contundentes são voltadas para a recuperação da vegetação na área rural e em meio à mata com o projeto Mananciais, realizado pela Amvali em parceria com outras instituições.

O projeto prevê a recuperação das nascentes e matas ciliares nos municípios da microrregião. Jaraguá do Sul é responsável por cerca de 80% do uso da bacia hidrográfica do rio Itapocu. “Ninguém imagina que pode faltar água nessa região por causa do alto índice de precipitação registrado ao longo do ano, que fica próximo aos dois mil milímetros. Entretanto, os ciclos de seca estão se intensificando nos últimos anos e o uso só cresce”, garante o presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica, Sérgio Santini.

Ainda neste ano, o Comitê deve finalizar a elaboração do plano de uso do rio Itapocu e seus afluentes, com diretrizes para gestão da bacia, diversificação e enquadramento do uso da água e outras questões necessárias para preservação dos rios.

 

FUJAMA CRIA SOLUÇÕES PARA MANTER RECURSOS HÍDRICOS

Seguindo o pensamento de “não virar as costas para os rios”, o presidente da Fujama (Fundação Jaraguaense do Meio Ambiente), Normando Zitta Júnior, ressalta que a entidade busca resgatar a ideia de contemplação das águas. Um exemplo disso, segundo o presidente, é a criação de soluções arquitetônicas para a ocupação de áreas alagáveis.

A Via Verde, no bairro Ilha da Figueira, é uma dessas obras. “A rua e o parque ali serão alagáveis, pode acontecer de ficarem interditadas uma ou duas vezes por ano, mas a área será ocupada e ganhará vida. Não vamos aterrar o local porque essa água que ocuparia o terreno durante as cheias, iria para outro lugar e prejudicaria a população”, aponta Zitta Júnior.

Uma solução adotada no passado e que deve ser substituída, conforme o presidente, é o plantio de bambus. “Alguns anos atrás, a árvore foi vista como alternativa para proteção das margens. Mas ela cresce de tal maneira que acaba criando uma ilha, a água corrompe as raízes por baixo e os bambus são levados pela correnteza, ficando presos nas cabeceiras”, explica. O recomendo é que sejam plantadas árvores frutíferas nestes locais.

A Fujama também passou a realizar fiscalizações surpresas nas empresas que licencia e utilizam a água dos afluentes para seu processo produtivo. Elas precisam ter um sistema de tratamento antes de despejar os resíduos novamente no rio. “Os índices de qualidade nas empresas de grande porte estão bons, são cerca de 30 no município licenciadas pela Fujama. Agora, precisamos avançar nas pequenas, são mais de 500 espalhadas pela cidade”, avalia o presidente.

Entre estas empresas de pequeno porte, estariam lavações e mecânicas, que na maioria das vezes usufruem das águas dos ribeirões. “Se não há caixa de gordura, ou o tamanho dela não é suficiente para a produção, essa química poluidora vai parar nas bocas de lobo e depois nos sistemas de drenagem”, garante Zitta Junior.

A contaminação das águas através de resíduos sólidos é outra preocupação da entidade. Muitos moradores ainda realizam terraplanagens clandestinas. Com a chuva, essa terra desce para os afluentes e deixa a água com mais turbidez, o que encarece o tratamento da água. Segundo o presidente, uma nova lei da terraplanagem está sendo feita para coibir estas ações irregulares. Critérios para fixação de pedras nas margens dos rios também foram estabelecidos.

Em relação aos despejos de entulhos nos rios, o presidente da Fujama acredita que para conscientizar a população mais efetivamente, é necessário oferecer condições para destinação correta, como o Ponto de Entrega Voluntária (PEV), que receberá gratuitamente materiais que não são mais utilizados pela população. Lá, poderão ser depositados móveis velhos, lâmpadas, baterias, pilhas, equipamentos eletrônicos, óleo de cozinha, latas e embalagens vazias. O local deve ser aberto em dezembro, próximo à Arena Jaraguá.

“Ninguém imagina que pode faltar água nessa região por causa do
alto índice de precipitação registrado ao longo do ano, que fica próximo
aos dois mil milímetros. Entretanto, os ciclos de seca estão se
intensificando nos últimos anos e o uso só cresce.”

Sérgio Santini, presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica

 

OS DOIS LADOS DO RIO

Vanderlei Leal dos Santos, 33 anos, é um morador recente do bairro Santo Antônio. Mudou-se oito meses atrás para uma casa que costeia o ribeirão. Neste período, o pedreiro já aproveitou a água para se refrescar, pescou alguns bagres e colheu amoras das árvores plantadas nas margens. No trecho, o ribeirão ainda é transparente. “Quando o tempo está seco é assim, mas quando chove, desce muito lixo de cima. No começo ficava preocupado com o transbordo, mas até hoje não aconteceu nenhum episódio”, relata Santos.

Mais abaixo, a realidade já é outra. Há 22 anos no bairro, Sidney Plaker, 32 anos, vive o lado negativo de morar ao lado do ribeirão. “Se tivesse estrutura seria bom, mas assim não. No ano passado, o rio subiu uns quatro metros e invadiu minha casa, perdi tudo. Depois, aterrei a garagem para me sentir mais seguro, mas sempre quando chove ficamos apreensivos. Há uns 15 anos ele era bem mais limpo”, conta Plaker.

De acordo com o morador, as pessoas ainda jogam muito lixo nos afluentes, o que prejudica a vazão das águas e facilita os transbordamentos. Outro ponto observado por ele é que mesmo com a rede de tratamento de esgoto instalada na rua, alguns moradores não efetuam a ligação para não pagarem a tarifa.

 

SAMAE LEMBRA QUE RIOS JARAGUAENSES
NÃO TÊM PONTOS DE BALNEABILIDADE

O Samae (Serviço Autônomo Municipal de Água e Esgoto) conta com 30 pontos de monitoramento nas estações de tratamento de água e seis pontos de coleta no manancial. Com o resultado destas aná- lises, o diretor técnico Deverson Simioni aponta que o item mais agravante dos rios em Jaraguá do Sul são os bacteriológicos, considerando principalmente o fósforo e nitrato. “O esterco para aduar as plantações, por exemplo, são revertidos em fósforos nos rios. Por isso, destacamos que não existe nenhum ponto balneável nos afluentes do município. Os únicos pontos são antes da formação do rio Itapocu, em Corupá, no rio Ano Bom e Humbold”, aponta o diretor técnico.

Os investimentos em tratamento de esgoto e de água fizeram com o nível de oxigenação dos rios aumentasse, o que implica na diminuição da morbidade dos peixes. Segundo cálculos do Samae, para chegar aos 100% de tratamento de esgoto no município, seriam necessários mais de R$ 80 milhões em investimentos. “Mesmo com a instalação da rede na sua rua, muitos moradores não fazem a ligação para não pagarem a taxa. Essa cultura precisa mudar para crescermos”, avalia o presidente do serviço, Ademir Izidoro.

Preservar as mananciais também está entre os objetivos traçados pela autarquia. Ainda neste ano, o órgão dará início a um cronograma de visitas domiciliares em 300 residências localizadas entre a ponte Abdon Batista, no Centro, e a divisa do município com Corupá.

“Não adianta termos uma estação de tratamento estruturada se não cuidarmos dos rios”, afirma o presidente. As casas selecionadas estão instaladas às margens do rio Itapocu. Algumas delas mantêm atividades agrícolas, como a bananicultura e bovinocultura, e acabam despejando materiais poluentes nos afluentes. “Vamos analisar o que precisa ser feito nestas localidades, será um trabalho integrado com as famílias para cuidarmos da nossa riqueza hídrica”, ressalta Izidoro.

 

CURIOSIDADE

O rio Itapocu, principal bacia hídrica para toda a região, recebe esse nome a partir da confluência do rio Novo com o rio Humbold, próximo à cidade de Corupá. Já dentro município, ele se junta ao rio Jaraguá. Posteriormente, recebe as águas do Itapocuzinho, Putanga e Piraí. Sua foz é em Barra Velha. No total, desde sua nascente mais distante, no rio Vermelho, o Itapocu possui 135,94 quilômetros de comprimento. A bacia hidrográfica ainda conta com os rios Natal e Massaranduba.

 

Fonte: OCP


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